Entrevista com as intituções do Portal

Por Coordenação do Portal Comunitário da CDD - 04/04/2010

 

O pesquisador Luiz Arthur Silva de Faria realizou uma série de entrevistas com representantes das diversas instituições envolvidas no projeto do Portal da Cidade de Deus. As respostas obtidas nos revelam grande entusiasmo e esperança depositada no projeto, acompanhadas, também, por uma visão crítica acerca dos elementos frágeis que devem ser melhorados para o cumprimento das intenções do Portal. Dentre os entrevistados estão Joab (Grupo Teatral Raiz da Liberdade), Maria do Socorro (ASVI), José Carlos (Ceacc), Joana (Do nosso jeito), Laura (Casa São Francisco), João Carlos e Felipe (Coopforte), Rosalina (OSAMI), além do idealizador do projeto, Celso Alvear. Acompanhe essa entrevista a seguir:

Luiz Arthur - Eu queria saber o que levou vocês a entrar nessa proposta do Portal.

Joana - Pra mim, o Portal foi uma coisa ótima que aconteceu porque foi uma forma da gente divulgar os nossos trabalhos, como eu falei, as coisas boas que existem na Cidade de Deus; porque aqui temos muitas coisas boas, de qualidade.

Reunião do portalSocorro - Eu acho... Eu acho não, é uma das maiores conquistas que a gente está tendo. Porque nesse momento... a gente ficou um ano em construção, né? Nunca me esqueço do dia que o pessoal do MIT veio aqui, com esse incentivo feito pelo Celso. E agora a gente está pra implantar um espaço onde a gente vai ver os efeitos... Antes a gente não se conhecia, então acho que hoje a gente está mais integrado, sabendo do trabalho do outro, sabendo das dificuldades, entendeu? A gente está aprendendo também a respeitar as limitações das entidades. Então, eu que estou vivendo esse momento, estou aprendendo muito, com as capacitações.

José Carlos - Eu, nós entramos, o CEAC, enfim, entrou para essa política do Portal por acreditar que as instituições e as redes da Cidade de Deus estavam pela primeira vez num encontro onde as vaidades ficaram de fora. Numa alternativa, assim, de nós mudarmos a imagem que as pessoas colocam. Porque as pessoas não ouvem as pessoas da Cidade de Deus, e a partir do Portal eles vão ouvir a opinião das pessoas da Cidade de Deus. Nós não vamos em momento nenhum enfeitar, vamos botar o dia-a-dia do que acontece na Cidade de Deus, não o que as pessoas inventam sobre a Cidade de Deus.

Joab - Eu acho legal porque a Cidade de Deus vai estar conectada com o mundo. Assim como através do filme, que na minha visão foi muito pior do que qualquer outra coisa... Uma vez eu estava indo trabalhar em Ipanema e vi as pessoas saindo do cinema no Leblon, falando horrores da Cidade de Deus; tinham acabado de assistir o filme, naquela época que o filme estava um sucesso danado. Fez me lembrar todo aquele episódio que a Cidade de Deus passou, realmente, com a guerra do Zé Pequeno e do Mané Galinha, que foi um fato - só não foi do jeito que foi retratado no cinema, que o cara colocou ali um monte de coisa que realmente não existiu. Mas foi muito ruim pra população da Cidade de Deus, que não conseguiu emprego, não conseguiu uma porrada de treco, que a gente é tão discriminado... você vai aqui do lado, na Barra, aí você vê, por exemplo, que aqui na Cidade de Deus nós somos uma mini África. A maioria esmagadora da população da Cidade de Deus é negra,e, quem não é negro, tá com um pezinho lá na África também, e as pessoas são discriminadas por serem negras e por morarem aqui também. Você vai no Barra Shopping... uma vez eu fui trocar um produto, e fiquei - cheguei antes de abrir - e fiquei reparando isso. As pessoas que passavam da Cidade de Deus pra trabalhar no Barra Shopping, todo mundo trabalhava escondido: ou trabalhava no estoque, ou trabalhava na limpeza. Não tinha ninguém nos balcões... a não ser em lojas de grande movimento - como C&A etc., pra não fazer merchandising -, mas em butique fina, etc. você não vê essas pessoas, e falta de capacidade não é. E a gente pulando pra outra coisa, aí o cara vira e fala que é toda uma coisa social e tal, e não é, a gente sabe que é todo um preconceito babaca pra cacete das pessoas. Então eu acho que o Portal é uma oportunidade de estar conectado com o mundo e dizer coisas boas. E uma forma da gente se comunicar entre a gente. Porque tem uma porrada de entidade também e a gente acaba uma se esbarrando no bigode da outra e acaba levando a gente a nada. É uma forma da gente se integrar mais, acho que vai ser do cacete. Muito bom.

Luiz Arthur - Quais elementos vocês acham que já estão fortes no Portal hoje e o que ainda está meio frágil, que ainda pode melhorar? O que ainda pode melhorar no Portal e o que já está legal, muito bom?

João Carlos - o que está faltando agora melhorar no Portal é o restante das entidades que estão aqui se incorporarem no projeto. Eu creio que isso vai acontecer, porque depois que eles virem o sucesso que vai ter, eles mesmos vão se automobilizar para vir pra cá. O que falta pra melhorar é a participação de todos no projeto.

Reunião no laboratórioJosé Carlos - Eu também concordo. Eu vejo o Portal como o futuro da comunicação da Cidade de Deus. Olha, existe como o companheiro falou, de não chegar em lugar nenhum, existe a desconfiança. Mas essa desconfiança, a partir do dia 18, ela vai por água abaixo, porque as pessoas vão ver no Portal qual é a realidade. E, só através do Portal, nós vamos poder nos comunicar melhor com o Rio, com todos os estados do Brasil e até com alguns países.

Felipe - O ponto mais frágil mesmo, não é a capacitação, é o interesse das pessoas de colocar conteúdo no Portal. Eu acho que está muito fraco. Todo conteúdo que não está ali ainda, pra mim já tinha que estar ali em dezembro. A própria cooperativa tem pouco. Então o mais fraco de tudo é que não tem conteúdo no Portal. Não sei, as pessoas, uns têm medo, as pessoas não tem aquela familiaridade com o computador e não tem noção do que colocar, que foto colocar, de que jeito colocar. Até falei com o João, "procura outras cooperativas, como é a página inicial deles’’ ... porque é assim que se aprende. Colocar o conteúdo no Portal parece uma coisa fácil, mas é fácil pra quem é profissional de fazer, já tem familiaridade com a máquina...

Luiz Arthur - Vocês acham que a proposta do Portal foi inovadora? Ela fez alguma coisa de diferente?

Joana - Eu acho. O novo foi a oportunidade de ter todas as instituições que estão no Portal e que queiram vir possam demonstrar o seu trabalho com mais clareza e com seriedade para que o resto do mundo possa conhecer o trabalho que existe na Cidade de Deus. E é uma forma de que o governo, das três esferas, possa acompanhar o nosso trabalho e vir dar sua colaboração, que é nosso direito enquanto cidadão.

Laura - Foi muito importante. O meu projeto é uma creche, então nós não saímos pra procurar a clientela, a clientela que nos procura. Com isso, nós éramos muito fechados, nós não tínhamos conhecimento do trabalho social das outras ONGs, das outras entidades da Cidade de Deus, nós éramos muito isoladas. E a partir do evento do Portal, que nós passamos a freqüentar, a participar das reuniões, então nós pudemos mostrar o nosso serviço, o nosso trabalho para as outras entidades. E também tomar conhecimento, porque realmente eu não conhecia praticamente nada do trabalho que era desenvolvido na Cidade de Deus, e agora estou encantada de ver como tem coisas boas. Por isso posso falar que tem muita coisa boa, porque agora eu conheço

Felipe - A proposta do Portal foi bem inovadora e ela vai trazer muito benefício, vai ser muito produtiva na prática mesmo para a Cidade de Deus. Tanto pras entidades quanto para a Cidade de Deus como um todo. Para as entidades, porque têm acesso a um site, cada uma, coisa que não teriam. Geralmente poucas entidades têm condição de criar e de manter um site. Então isso é muito bom pra mostrar a entidade pra fora da Cidade de Deus e para o público da Cidade de Deus também. Não tem outra iniciativa mais prática para se mostrar a Cidade de Deus como ela é, a parte boa da Cidade de Deus.

Luiz Arthur - Queria saber se vocês acham que o Portal é democrático. E porque é ou porque não é.

Joab - Eu acho que é democrático sim, porque está aberto aí pras pessoas participarem, e agente aceita, quanto mais, melhor. Então eu acho que é hiper democrático.

Felipe - A construção democrática do Portal é o que é mais importante (...) o Portal não tem até hoje uma direção. Não tem um diretor, um gerente, não tem nada. É tudo assim. A gente tem que tirar ainda duas ou três pessoas para cuidar da parte geral, a página inicial do Portal mesmo, não de cada entidade... A parte comum de todos... Talvez seja uma das entidades... a  Socorro da ASVI, talvez alguma outra, e isso pode mudar de ano pra ano, ter um rodízio de entidades pra não ficar só essa. Porque é coisa de responsabilidade, essas entidades terão acesso irrestrito nesse sentido ao Portal inicial... Essa parte democrática e a parte da gente ser firme nas coisas: o que foi decidido numa reunião não se muda na outra, pode entrar quem quiser, não se discute. Outra pessoa tem que informar o que foi discutido. Tem entidade entrando até hoje. Ela tem que acatar tudo o que foi decidido no Portal até agora. Daqui pra frente a gente pode discutir... Isso vem desde o começo. (...) Isso é muito bom porque fica muito produtivo. As reuniões do Portal no início eram semanais, depois eram quinzenais, porque daí não tinha tanta coisa pra se definir.

Luiz Arthur - Para finalizar. O que é o Portal pra você?

Laura - O Portal na realidade é uma oportunidade da gente mostrar que a Cidade de Deus pode não ser um céu, como nenhum bairro da cidade do Rio de Janeiro é, mesmo zona sul e tudo mais, mas que está longe de ser um inferno, como foi falado aqui na música (referindo-se à música “Nome de Favelas’’ de Paulo César Pinheiro’’, citada no início da entrevista).
 

José Carlos - A liberdade que o Portal vai nos dar é que nós vamos poder responder perguntas a pessoas que têm dúvidas do que é Cidade de Deus. Nós vamos poder dar nossas opiniões, fazer convites para pessoas poderem nos visitar, seja na agência de desenvolvimento, seja na Casa de São Francisco - eu moro na Cidade de Deus há quarenta e dois anos, quando eu me mudei para a Cidade de Deus não tinha nem a rua, o morro ainda ia lá fora, não tinha nada ali... Eu não sabia que ali era aberto para as pessoas, para mim ali era uma creche fechada. Então as pessoas vão ter a mesma liberdade que eu tive morando na Cidade de Deus. Então eu vejo que o Portal é o ponto de partida para que as pessoas venham nos conhecer.

Maria do Socorro - Pra mim, é tudo que eles falaram, mas principalmente acho que a gente quebrou essa história de que as instituições da Cidade de Deus não se entendem, o que foi uma construção muito legal.. Não vejo a hora de dizer pra todo mundo, "entrem lá, acessem!".

Luiz Arthur - Obrigado. E boa sorte para o Portal!

Rosalina - E você, o que acha?

Luiz Arthur - Eu concordo totalmente com vocês, eu acho que muitas vezes a gente tem, a gente que não conhece o dia-a dia da Cidade de Deus, uma visão deturpada, e o Portal é uma ferramenta - talvez não seja a única - mas é uma ferramenta muito importante. Ainda mais tendo representatividade, de várias organizações lá, cada uma dizendo, com voz própria, o que pensa. Eu acho que é uma ferramenta boa pra mudar a imagem sim lá fora, e pra ter mais integração aqui dentro.

 

Trechos da entrevista com Celso Alexandre Souza de Alvear:

Luiz Arthur – O que o levou a participar do portal?

Celso - Meu mestrado foi sobre a Cidade de Deus, em Engenharia de Produção... Então, naquele trabalho na Cidade de Deus, que não tinha nada a ver com software – era sobre redes, redes de cooperação, entre ONGs, poder público, empresas -, aí... “De onde você é?” ... “Ah, Engenharia de Produção...”... Aí eu falava sobre mim, me formei em engenharia eletrônica. “Ah, então você sabe programar?” “Um pouquinho.” “Ah, a gente está precisando de um site.” Então todo mundo vinha com aquele papo, de que estavam precisando de um site. Bom, não é trabalho da universidade fazer um site para uma organização. “Vou tentar ver alguém que pode... Gente vamos fazer uma coisa: é um pedido coletivo. Então eu vou tentar pensar depois, assim que acabar o mestrado, num projeto de extensão envolvendo um portal comunitário.” Porque aí seria uma forma de fazer um trabalho mais ampliado. E por outro lado também, como resultado da dissertação, … [onde] levantei diversos problemas sobre [se] … essa rede formada por diversas organizações, fatores externos etc. contribuiu para o desenvolvimento local ou não – e eu … colocava que praticamente não, não contribuía. E por quê? Porque existia baixa articulação interna, eles não sabiam como se articular para levar ao poder público, não tinham poder de pressão para influenciar políticas públicas... Aí dentre esses diversos problemas, eu levantei possíveis soluções, e uma delas era desenvolver um portal comunitário. E aí pra ajudar a aumentar essa articulação interna. … Então na verdade o portal comunitário é fundo, ele é meio, na verdade o objetivo é colocar o pessoal ali sentando junto nas reuniões do portal comunitário, pra começar a se conhecer melhor, diminuir algumas divergências políticas, que tinham lá, e construir algo coletivo que permita a longo prazo, com essas reuniões do portal, criar uma identidade coletiva pra poderem fazer projetos reais juntos. Então o portal é só um instrumento, e o desenvolvimento dele. Não só o portal, mas o desenvolvimento dele como processo. Por exemplo, hoje teve uma reunião, tinham lá umas doze, treze organizações. Organizações que às vezes mal se conheciam...

Luiz Arthur - Quais os principais elementos da proposição?

Celso - O elemento principal é a interação entre eles, a questão de como eles estão se organizando pra fazer o portal... Aquela coisa de eles terem que lutar para obter um dinheiro para pagar um servidor privado... Então eles estão fazendo uma coleta de dinheiro, todo mês, uma coisa que é difícil lá... Existe uma demanda pra eles que é … o site da sua organização...

Mas o objetivo é que eles se estruturem para, por exemplo, sempre que eles preencham algo da entidade deles, uma atividade social, apareça aqui nas atividades sociais – onde vão ter todas as atividades sociais da Cidade de Deus.  Mesma coisa a agenda: quando eles colocam um evento da entidade deles, aparece também na agenda da Cidade de Deus. Quando eles colocam uma notícia na entidade deles, aparece também uma notícia na área de notícias da Cidade de Deus.
   
Aí tem outras coisas aqui, que é pra eles preencherem, como entrevistas a moradores da Cidade de Deus, arquivo de fotos e documentos... fórum.
Então acho que essa parte é talvez a mais estratégica do portal, essas partes que demandam algum projeto fora do portal, entendeu? Por exemplo, pra fazer uma entrevista com moradores, eles vão ter que se juntar, ou então alguém vai ter que fazer e depois vão ter que colocar na reunião, ver se está bom, mexer no conteúdo, aprovar...

Luiz Arthur - O que é inovador?

Celso - O que eu vejo de inovador, que até a gente discute aqui no Soltec é a metodologia, a forma como foi feita. Toda conceituação por trás, quais são os objetivos do Portal... Como deveria ser o Portal, como deveria ser a escolha da tecnologia, quer dizer, colocá-los na coisa da tecnologia... foi parte do processo... Então a metodologia, que é o que a gente está descrevendo também... a gente já começou a fazer uma cartilha... Serão três cartilhas, três volumes da cartilha: uma primeira que é mais conceitual, uma segunda que é conceitual e a metodologia, e uma que é o passo a passo de montagem do portal... que qualquer um que entenda o mínimo de computador pode pegar um servidor, baixar o Plone, e fazer as configurações uma por uma para transformá-lo um portal comunitário... E um manual de usuário também.
 
(...)
    Acho que o principal é isso, é eles se unirem, pensar conjuntamente a Cidade de Deus
acho que uma discussão que seria banal, de discutir o portal, o que que vai colocar de conteúdo ... permite criar uma identidade que futuramente os caras possam discutir uma coisa mais estratégica e mesmo que discordem, mas já criaram uma relação pessoal que permite você discordar mas não criar um racha... respeito sua opinião, vamos chegar a um meio termo para gerar um ganho para a Cidade de Deus... não o que eu quero nem o que você quer. Acho que também eles terem na mão um projeto onde estão eles todos, permite conseguir verbas... ter mais poder para conseguir verbas...

 (...)
    Acho que é um pouco isso mesmo, o modelo da economia solidária, a coisa da autogestão, um sistema baseado na autogestão, uma lógica baseada na autogestão, decisões coletivas... compartilhadas, solidariedade entre os membros, acho que é o que está por trás do Portal.

Luiz Arthur -  Você vê ligação do processo do Portal com o tema da democracia?

Celso - Sim, mas com democracia nesse sentido, democracia participativa, não democracia eleitoral. A gente debate muito aqui, democracia eleitoral não é uma democracia efetiva, uma democracia real... É um pouco isso mesmo, a gente tenta aplicar isso lá, entre as organizações.... E também o que a gente sempre debate lá, evitar que as minorias lá sejam esmagadas... Começa com coisas pequenas, tipo não concordo com tal organização e passa por cima da organização... daqui a pouco, das vinte vão sobrar três... A gente tenta discutir com eles para ser o mais inclusivo possível nas decisões do portal.

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